quarta-feira, 17 de março de 2010

Um programa em família



  • Faz muito tempo que aconteceu...

  • Tudo bem, tente se lembrar. Qualquer coisa!


OPA! Peraí. Deixa eu recomeçar, isso tá meio “Titanic” demais.

Faz muito tempo que aconteceu, mas eu vou tentar lembrar dos fatos para reproduzi-los fielmente – na medida do possível.

Eu tinha 16 anos, rockeiro e rebelde. Meu pai tinha 39 anos, rockeiro e rebelde.

Eu estava assistindo ao “Intercine”, um programa que exibe filmes antigos de madrugada. Não lembro qual filme era, exatamente, mas certamente tratava-se de algum “clássico oitentista” que eu adoro, tipo o Rambo ou o Exterminador do Futuro.

Era sexta-feira. Como um cão habituado com o dono, notei de longe: ele estava chegando. O portão do prédio bateu, ouvi passos pesados na escada – apoiados no corrimão, fazendo um estardalhaço dos diabos – e o sinal definitivo: a chave que não encontra o buraco da fechadura por nada no mundo!

Finalmente, meu pai abriu a porta. Olhou-me com uma expressão intrigada e abobalhada. Abriu um sorriso sincero e perguntou: “o que foi?”. Ele estava bêbado.



    • Fala Robsão! Dá um beijão aqui!




Não pude escapar de seu abraço pegajoso. Recebi o beijo mais molhado que garota nenhuma jamais me deu.

Ele sentou-se para tirar os tênis, quando uma lâmpada acendeu-se sobre sua cabeça – juro que pude ver a lâmpada! Acho que esta mesma lâmpada tem visitado caras como Einstein, Newton e o doutor Emmett Brown ha séculos!

Rapidamente (tanto quanto possível, ele estava bêbado, lembra?) meu pai amarrou novamente os cadarços dos tênis e, de maneira triunfal, contou-me sua idéia:



    • Vou te levar num barzinho de Rock'n Roll!!




Não preciso dizer que aderi com prontidão. Adoro uma farra descabida!!

Sentado no passageiro de um Gol “Batedeira” (o modelo mais antigo, cujo motor bate como uma batedeira) fui com meu pai rumo ao desconhecido.

O bar em questão é o extinto “Novo Aeon, o Pontão do Rock”, um barzinho-boteco de rock, que ficava na Av. Robert Kennedy (São Paulo – SP).

Meu entusiasmo caiu de quatro (olha o respeito!) quando chegamos. O bar estava fechado. Tudo bem – pensei – eu nem queria mesmo...

Mas meu pai não se deu por vencido. Fez a primeira conversão proibida que encontrou, com a sutileza de um elefante numa loja de cristais (ele estava bêbado, lembra?) e, como um GPS, atualizou a rota: “vamos ao GLS!”. Gays, Lésbicas e Simpatizantes – balada homossexual.

O GLS era um ambiente “super familiar”. Uma baladinha com uma pista de dança e um bar nos fundos do salão.

Meu pai foi logo entrando sem pudores. Para minha surpresa, ele já conhecia o segurança da casa! Dentro do recinto, fiquei SUPER encabulado. Meu pai, ao contrário, não titubeou (ele estava bêbado, lembra?). Foi direto para a pista e dançou ao sons de “I Will Survive” e “Macho Man”.

QUE DESESPERO! Os “rapazes” começaram a juntar-se ao redor do meu pai, que bêbado (lembra?) estava vulnerável – uma presa fácil! Não tinha o que fazer. Só pude fechar os olhos e esperar pelo pior: encarnei o personagem, me embrenhei na roda de “machos” e agarrei meu pai. Dançamos coladinhos, lindo! As garotas mais românticas teriam sem lembrado de Patrick Swayze e Jennifer Grey em “Dirty Dancing – Ritmo Quente”. Acho que aqueles “meninões” lembraram...

Missão Resgate concluída, tratei de tirá-lo dali. Na saída, a cereja do bolo, para fechar a noite com chave de ouro: uma mão me agarrou o ombro!

Minhas pernas tremeram, o coração acelerou, a respiração ficou ofegante. NÃO, EU NÃO ME APAIXONEI POR NINGUÉM! Estes também são sinais de medo e alerta, causados pela adrenalina liberada na corrente sanguínea.

Uma voz pastosa e insolente – e para meu espanto, conhecida – falou-me ao pé do ouvido:



    • Nuoooooooooooossa! Não sabia que você gostava desse tipo de “rolê”...!




Virei pra trás, não resisti. ESPANTO! Tratava-se de ninguém menos que um dos meus professores do colegial! Rapidamente expliquei-me:



    • Hehe – sorriso amarelo – não é nada disso que você está pensando. Estou aqui com meu pai.




Será que eu esperava que ele acreditasse?



    • Aham, eu sei. Todos os meus amigos aqui dentro estão passeando com o papai também!




Passei o braço em volta do ombro do meu namorado, digo, pai, e saí de lá.

Meu pai nega. Diz que não se recorda de nada – ele estava bêbado, lembra?

Robson Ribeiro



8 comentários:

  1. Ah Robson estou tornando-me presença cativa aqui!
    Os seus contos são realmente envolventes. Você consegue nos levar a cena. Eu consigo visualizar cada cena do que você descreve.
    E essa mistura de real e ficção fascina.
    Adorei esse programa de familia que me parece bem real talvez com apenas aguns 'caôs'.
    É muito bom ter um pai jovem que fala a mesma linguagem e vive o mesmo tempo que os filhos.
    Essa relação não tem preço.
    E um bom almoço [feijoada] pode render ótimas recordações.
    Gostei muito!

    Patricia

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  2. Marcelo ShytaraLira18 de março de 2010 15:32

    Sim é verdade eu estava completamente ébrio, mas me lembro de tudo o que ocorreu naquela noite.
    Em uma das bichas me perguntou como é que se faz para arrastar um garotão bonitão como aquele que eu estava.
    "Fácil seja lindo tb!!!!!... quiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquia

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  3. HAhahahahahHAhashasaH

    Vou ter que inverter o meu jargão nessa: pai de peixinho, peixe é!!

    Beijo!

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  4. Acho que todos somos uma mistura de verdades e mentiras - às vezes autênticos e às vezes com interesses ocultos...

    Não darei mais dicas sobre o que é verdade e o que é caô! Se é que tem algum caô, ou se é que tem alguma verdade! Farei como poetas e poetisas: deixarei para o leitor a tarefa de interpretar o texto!

    Obrigado por mais um comentário!

    Robson

    p.s.: fiquei curioso, esta "feijoada" carioca está famosa por aqui!

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  5. Rss.. Acho que é isso mesmo! 'A ordem dos fatores não altera o produto...'
    E eu tenho a minha interpretação...[acho que correta]
    Quanto a feijoada você está convidado! É muito boa mesmo!

    Patricia

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  6. Nao creio! hsuiahsiuha. O post q mais parece ficção dentre todos os outros é verdade!!! hahaha

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  7. A-DO-REI!!!!

    Eu li imaginando a CARA que você fez quando viu o professor!! jajajajajajaja

    Parabéns, você escreve muito bem.

    =}

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  8. argh! ninguém merece aquele prof.! =/

    brigado pipoca! =)

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