segunda-feira, 5 de abril de 2010

Compaixão e não-compaixão

Isso sim foi um tapa no rosto! Dizer que a compaixão é um mal que destrói a sociedade... Esta afirmação vai de encontro com tudo aquilo que penso – e sempre pensei – sobre o mundo! Uns dizem que Nietzsche foi um grande filósofo, outros que ele escrevia dopado, ou em meio a crises nervosas.

Eu não sei o que pensar, e não tenho vergonha disto. Antes assumir a dúvida – dizer não sei é muito difícil para aqueles que procuram desesperadamente uma auto-afirmação – do que ficar regurgitando palavras engolidas e não digeridas por aí. Digerir, aliás, é difícil e leva tempo! Será que alguém pode digerir a vida na casa dos 20? Acho que não. Não se pode ser um gênio na arte de viver como se pode nas artes da música ou pintura, por exemplo.

As vezes me sinto vítima dos filósofos. Tenho uma linha de pensamento lógica e racional. Eles, os filósofos, são lógicos em seus argumentos, o que me leva a concordar com o que dizem – ou melhor, escrevem. Isso é perigoso. O ser humano não é máquina – não é lógica pura e simplesmente.

Não sei se são filósofos ou sofistas esses caras. É tido por sofista aquele que faz uso da dialética e da retórica para subjugar seu interlocutor e fazer com este acredite em seu ponto de vista. Mas o filósofo se vale dos mesmos artifícios. É, portanto, uma diferença de cunho ético/moral – diz-se que o filósofo tem objetivos nobres e o sofista, não.

Acontece que ética e moral são conceitos construídos à base de vivência e maturidade, aliados a estudos e debates – talvez até algo mais, não sei. Mas como podem achar alguns que têm condições de “criar um próprio código ético/moral” sem estes ingredientes? E, mais do que isso, querer empurrar esta massa sem fermento e forno goela abaixo daqueles ao seu redor? Isto é petulÂNCIA, ignorÂNCIA e acima de tudo ÂNSIA de mostrar que é alguma coisa diferente, especial. É preciso ter calma. Ter paciência. Descer do muro apenas quando tiver estatura para isso!

De volta ao início: posso entender o mal que a compaixão causa ao mundo. Compaixão leva à doação, e doação é gratuidade por excelência. Mas nada que vem de graça tem muito valor. É como a história do “dar o peixe e do aprender a pescar”. Dar o peixe resolve a curto prazo, mas a longo prazo o crescimento necessário não chega nunca. O que esperar de um país que tem bolsa família? Alguém vai querer se mexer? Se ninguém se mexer, o país anda?

Mas o que fazer? Sem o alimento necessário a pessoa não pensa. Sem pensar não cresce. Mas se ganhar o alimento, não pensa em obtê-lo por conta própria, e se não o fizer, não cresce! Como fazer do ciclo vicioso uma espiral crescente, “pro alto e avante” como diz o “Superomão”?

Compaixão seguida de “não-compaixão”.

Compaixão sim. Não concordo (pelo menos não ainda, quem sabe?) que a “teoria da seleção natural” se aplique aos seres humanos. Tampouco concordo que entre seres humanos se aplique a lei do mais forte. Disse Aristóteles que existem diferenças naturais – físicas e mentais – entre os homens. Digo eu que isso não me basta para aceitar a riqueza de uns e a miséria de outros.

Concordo com Nietzsche quando este ataca o cristianismo. A Igreja quando instituição se mostrou muito nociva ao andamento da sociedade – e pensar que Platão apoiava a idéia de controlar o povo por meio da religião.

Mas a compaixão ainda é necessária no mundo em que vivemos. Precisamos ter compaixão para quebrar a inércia – dar um impulso inicial no crescimento, como aquele tapinha que os médicos dão no bumbum do recém-nascido.

Porém, com a roda em movimento, não podemos nos acomodar – inércia existe quando não podemos sair do repouso e quando não podemos sair dum mesmo movimento, e para seguir a espiral do crescimento é necessário sempre um movimento diferente – e este é o momento de praticar a não-compaixão. Quando as coisas não mais vierem de graça, sairemos da inércia novamente e, assim, cresceremos.

Nietzsche se considerava um escritor póstumo – dizia que estava à frente de seu tempo. Creio que estava muito à frente. O mundo sem compaixão poderá existir algum dia, mas apenas no dia em que todos tiverem a oportunidade de pastorear a própria vida.

Robson Ribeiro

5 comentários:

  1. Puxa Robson agora você foi fundo no seu texto. Nietzsche.

    Sabe não é facil digerir a vida em momento algum... é duro!
    Nem sempre é facil acreditar em um Deus todo poderoso... a vida nos deixa em dúvidas e contradições.

    Enfim...gosto desses pensamentos de Nietzsche:

    "Aquilo que se faz por amor está sempre além do bem e do mal.' [Friedrich Nietzsche]

    Eu não consigo enxergar a vida sem amor e em consequencia a compaixão.


    "Há sempre alguma loucura no amor. Mas há sempre um pouco de razão na loucura."

    Se não tivermos toques de loucura a vida torna-se um martirio de tão racional. É preciso sim alguma loucura. É na loucura que somos mais racionais.

    Parabéns!
    Bjo
    Patricia

    ResponderExcluir
  2. Eu, na verdade, não tenho conceito formado sobre a obra de Nietzsche - nem de nenhum outro pensador. Me falta muita coisa pra isso. Mas procuro, sou curioso, então leio e como produto desta leitura, escrevo. Escrevo pra registrar o momento, para que este não se perca e eu possa revisitá-lo depois (como eu gostaria de ter uma penseira como a do Dumbledore!).

    Não tenho pretensão alguma, quero apenas aprender, tentar digerir esta vida que me foi dada de presente!

    Gosto da loucura! Nunca vi um sorriso sair da razão!

    Obrigado por mais um comentário!
    Beijo!
    Robson

    ResponderExcluir
  3. Marcelo ShytaraLira8 de abril de 2010 21:54

    Sabe o que penso disso tudo é que tudo que já pensei, apenas me borraram... quaiquiaquiaquiaquiaquiaquia...
    Um cientista babaca disse que o cerébro é acinzentado...quiaquiaquiaquiaquiaquiaquiaquia...
    o meu toda fez que pensa, aconte ce um acidente e preciso usar fraldas....quiaquiaquiaquia...
    bjs

    ResponderExcluir
  4. pô pai, talvez você tenha razão - você é muito mais experimentado na vida que eu. às vezes eu tenho a impressão de que você já percorreu este mesmo caminho de dúvidas. só não sei se encontrou seu destino ou se perdeu-se pelo caminho¬¬

    beijo!

    ResponderExcluir
  5. Acho que nos perdemos em meio a tantas duvidas na busca de uma so resposta: Como ser feliz nessa vida tao curta que temos.

    Muitas vezes saber o que nos faz feliz ja eh uma duvida para a vida inteira, por si so. Seguir principios e caminhos que consideramos corretos hoje, como a compaixao, podem se mostrar totalmente reversos amanha.

    A mente do ser humano realmente e muito complexa, e nao eh a toa que aqueles que conseguem ir um pouco alem do entendimento padrao simplesmente acabam pirando... isso pq dizem q so usamos 10, 20% do cerebro!!!

    ResponderExcluir